domingo, 8 de agosto de 2010

Agridoce Perfume.



Sem permissão. Sem intuito. Sem estar preparado. Senti seu cheiro quando passei pela cozinha. Ia apenas despejar o resto do café que ficou entranhado no fundo da minha xícara. Mas não poderia ser apenas desse jeito. Quando passei pelo tapete junto à porta, seu perfume agarrou-me feito predador veloz e voraz. Dilacerou-me. Impregnou, feito praga, sem dó nem piedade, nas minhas maçãs róseas do rosto o arder dessa paixão ainda viva e as deixou vermelhas num estado de sangue onde perceberam minha apreensão. Chupou-me os lábios úmidos de cafeína e os deixou seco feito a canela que ficou sobre a toalha mal passada da mesa.

Ele veio assim, temperado com açúcar e vinagre junto ao odor do jantar. Quente feito minhas febres de saudade nos dias mal dormidos depois de horas de leitura das suas antigas cartas. Macio como os detalhes de seda das cortinas do basculante desta pequena cozinha. Correu debaixo dos móveis. Entrelaçou-se entre as pernas das cadeiras rústicas. Escondeu-se por trás da vassoura maltratada que descansava do lado dos chinelos velhos, os quais eu me esqueci de tirar para por no quintal. E esperou-me. Calado. Ansioso para ver minha cara de bobo nesse espetáculo onde fez o tempo parar por minutos e repassar em minha mente fértil uma película fracassada do nosso teatro.

Surpreendeu-me. Não houve grito. Só espanto. Desses calados, onde pode ter até uma lágrima escorrendo no canto do rosto. Salgado. Com muito sal parecendo ácido que doeu os olhos. Doce. O quanto mais, melhor. Perfume que não me alivia. Só me mata. Quieto como um veneno de lembranças que entra pelos meus brônquios e rasga como esponja fraca meus pulmões cheios de nicotina sedenta. Onde viram fumaça agridoce, com bastante acre e com muito açúcar.

Júnior.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Durante a Viagem.

Dessa vez eu não pude evitar. Ela agarrou-me por dentro das vísceras e arrancou-me o algo mais precioso que deixei guardado para quando você voltasse da primavera. Não me presenteou com esses livros que fazem todos chorarem. Não se lembrou de me trazer nenhuma lembrança da última estação. Nem ao menos uma flor murcha para eu poder lembrar um pouco mais de você.

Foi assim. Como um sopro gelado de outrora que perturbou meus pés que tentavam se manter quentes debaixo do cobertor. Um suspiro inesperado me rasgou o silêncio e tirou-me da cama. Viciando meus ouvidos. Enfeitiçando minha boca da saliva quente feito pimenta vermelha no batom borrado sangrando de outros beijos. Esse gosto molhado de suor que pude provar nas costas dessa maldita me deixou morrer jogado no chão esperando um pouco mais para saciar-me. E não pude evitar.

Esses semblantes doces que dançavam entre as cortinas desse quarto me tiraram para dança enigmática que não pude decifrar os passos nem muito menos a melodia. Era tão sem ritmo. Sem batidas organizadas. Apenas o dançar mal ensaiado e perfeito por completo dos nossos corpos se penetrando debaixo do fogo daqueles lustres vermelhos. Essa cor parece que me hipnotizou. Não me deixou nem ao menos pensar nos meus atos e fatos. Não me deixou escolhas e opções. Deu-me somente o gozo intenso desses sentimentos que agora custo em encontrar.

Tudo mentira. Primeiro ela diz que vai me saciar. Depois promete retornar para os meus braços numa noite qualquer desses invernos e infernos. Faz-me beber do vinho mais doce. Logo, eu juro descontrole. Ela não se importa. Diz que está tudo sob seu domínio e me dá colo quando preciso desabafar. Eu choro quando percebo a dor que causei ao meu íntimo e o maltratar dessas orgias dentro do nosso relicário. Ela finge não se irritar e com um nervosismo absolutamente aparente jogado nas suas sobrancelhas que dançam sem música, tremelicam, deixa-me cair no chão frio. Cara amassada. Machucada no tão duro. Misturando-se na poeira vadia dos últimos dias com teus sapatos desfilando pelo tapete. Ela se pronuncia. Diz que vai embora. Diz que vai me deixar pensar na tolice e no martírio que causei por este devaneio. Não sei como explicar. Ela me toma de uma forma que me deixa vulnerável com meus próprios atos.

Choro novamente. Agora sem colo. Penso na fotografia da última primavera que você me presenteou. E isso me dói. Penso na morte dessas músicas, cartas, manchas e cheiros que decoram nosso canto. E isso me dói. Penso nos beijos desses verões e amores de outono. Penso nas nossas tardes roxas grifadas no céu. Penso no amanhecer dos nossos braços debaixo dos altares. E tudo isso me dói. Arde como brasa rubra que queima em minha consciência. Seca meus lábios de vergonha e os rasgam. Queima minha inocência e joga fora todos meus desejos feitos quando descobrimos as estrelas cadentes. Destrói até essas minhas estrelas que um dia cultivei apenas em segredo.

Então percebo. Nada mais tenho, a não ser esse cigarro, essa roupa manchada de sexo e essa maldita fraqueza que não me deixa dormir. Quando menos espero, ela sai disfarçadamente e bate-me a porta com uma força que não é bruta. Estrondo que estoura meus tímpanos. Tira-me os vocais. Ergue minha impaciência. Fazendo-me voltar à realidade e me afunda mais ainda. Quebra minhas noções de liberdade. Joga fora minha pouca vergonha. Cospe na minha cara o meu sufoco. Não recita as palavras que tanto quis escutar depois dessa pérfida relação. Essas palavras que justificam nossas faltas, que arrancam nosso medo do fim, recolhem nosso fracasso.

Sujo, me visto com pouca roupa. Tento esconder essa cara inchada pelo orgasmo. Fumo sem saber outros três cigarros. Meto-me dentro desses conhaques a fim de justificar minha ausência de fidelidade. Tento jogar fora essa vergonha que me sangra as bochechas. Mas nada adianta. Se eu pudesse ao menos esquecer esta última dança? Mas a música de suspiros lateja ma minha alma desonrada. Mete a certeza na minha cabeça de que meus olhos vão me entregar quando você chegar. Sinto que eles farão o que não quero fazer. Dirão tudo que eu prezaria no silêncio. Tudo que eu esconderia no calado. Pressinto que até o que guardei pra você eu não vou poder deixar em cima da cama. Liso. Quente. Perfumado. Nem essa baboseira de amor que um dia acreditei, vou poder cultivar mais com suas flores que ainda sei que vais trazer dessa primavera. O não saber de nada. Mato minha dignidade com pequenos instantes. E isso me dói. Aqui, quieto esperando o barulho das chaves brincarem na maçaneta da porta e a poeira dos teus sapatos invadirem esse quarto. Meus olhos ainda continuam calados, por enquanto. Sem contar minha deslealdade.

Júnior.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Esquivo.


Não se engane. Não vivo nesta noite em todas as calçadas dessa terra tão gloriosa. Perco muitos carnavais, se você não percebe. Esqueço muitos privilégios em busca desse contentamento que não sei onde foi parar. Maltrato minhas mãos na tentativa de tocar esse instrumento pesado de dor. Reprovo-me nessas matérias devido às notas baixas do meu afeto.

Não sou verdadeiro. Não brilho nesses risos. Não sinto essa bebedeira de amores. Nem muito menos pulo ao som das ladeiras nesta festança sem levar comigo a pele que me molda de alegria.

Torno-me assim. Esquivo.

Não sinta esse meu boêmio inferno jeito de lhe dar com o meu poço vazio. Tenho em mente o quanto me distraio para não lembrar-me das noites/cinzas de estrela. Se me veres assim, com cor, vivo, atraente, não saberás o quanto tento enfiar essa vida dentro dessas garrafas de tonteira. Modelando-a.

Tornando-me assim. Esquivo.

Corto sem perceber este caminho seco de amor que me presenteiam. É de vontade própria querer aproveitar o pouco que me resta. Finjo de felicidade colorindo de confetes móveis de tão vivos essa dor que me alfineta o pescoço. Realço de corado essas minhas maçãs do rosto para que não percebam o escuro das luzes apagadas depois do espetáculo de vida real.

Então não se sinta convidado para essa noite de dança. Beberei, só, dessa água que cai na minha cabeça latejando o amor todo recordado. Enfeitarei, só, essas calçadas com as flores do meu riso escancarado. Farei, só, as composições dos embriagados de dentes amarelados. Porque assim... Não vou me enganar!

Tornar-me-ei, assim. Esquivo.

Júnior

domingo, 1 de agosto de 2010

Alice confessa.


Com um amigo, depois de ter chorado a noite inteira na embriaguez das noites recifences, Alice despeja nas calçadas banhadas de cachaça o seu pensar-odiar-sentir-amar:

_Pedro, era pra ser limitado e com uma data de validade. Entraríamos num boteco bem jeitosinho feito este, com essa decoração rústica que sempre desejei para a minha casa, tocando as músicas mais belas de paixões que deixam marcas jamais curadas, encontraríamos diversas pessoas interessantes e poderíamos escolher apenas uma.

Inoculava-nos essa droga forte e miserável, quase antidepressiva, para que conseguíssemos ver as cores mais atraentes nos risos, nos objetos, nos sexos, nos ventos, nos dentes, nas mãos. Daí, sairíamos pronto para amar, sabe? Amor daqueles fortes que te deixam expostos a sacrifícios independentes de posição conceitual, ideológica ou pessoal. Amores que te matam aos poucos e até gostam de te ver sangrar. Amor que te arranca as vísceras e te cheira mal na melancolia. Amor que te chupa a língua e te lambe os dedos lambuzados. Amor que te cospe à cara e te rasga a carne quente feito brasa. Porque só assim seria um amor de verdade. Aquele que dói e te fode. (Ocorre uma pausa entre a música, o cigarro e os amigos falantes).

Depois, como nada é pra sempre, por mais que seja de praxe essa frase, o amor passa. Num tempo indeterminado. Então, as pessoas parecem esquecer-se do cheiro bom uma das outras ou dos olhos carentes que sempre te deixam feliz depois de uma tarde sozinha. E isso é o que me mata, entende? Não o amor, mas o que vem depois dele. O que sobra no ralo do banheiro sem o outro corpo banhado. Aquilo que te deixa na cama com dores no estômago depois de mais uma noite de insônia. Aquele cheiro mofado nos lençóis do suor da outra nuca que não vai dormir mais naquele cômodo. Esse pensar no porque de não ter dado certo ou o que foi que fizemos de errado. Essa agonia e desespero que te faz a pessoa menos encantadora do mundo. Essa porra que te guarda/prende no canto do quarto quando tu não queres ser guardado/preso. Esse sentimento que me recolhe e me encolhe e me transforma em mágoa parece dilacerar meu peito em busca de novos braços, toques, arrepios, beijos, risos e olhos que jamais me envolvem depois de tudo já perdido.

E nada me basta. Depois do amor essas merdas não preenchem o seco-oco-profundo-escuro dentro dessa caixa torácica em que eu insisto tentar manipular. Não cobrem o estrago feito no cliente. Não correspondem as propagandas feitas na embalagem bem arrumada. Não satisfazem o comprador inocente-corajoso depois de agitá-las e usá-las.

É tudo predestinado. Quem ama deve estar muito decidido para querer amar o sofrimento que essa palavra bonita carrega consigo. É uma dor tão incomoda, sabe? Uma pontadinha bem no canto direito da barriga fazendo arder. Um queimor nas faces que parece querer sair de dentro da minha cabeça pelas bochechas me maltratando.

E ficamos assim: bêbados do amor que nunca devia existir nos bares e calçadas dessa cidade. O pior é que temos de domar essa passagem pela nossa vida. Porque não estamos sós. Bem que poderia ser limitado. Com as instruções como usar, gozar e jogar fora. Depois de ter abusado e ter criado abuso, colocá-lo em alguma lata de lixo para ser reciclado, talvez. Quem sabe uma outra pessoa poderia gostar dele? Porque pra mim, Pedro, não dá. O amor é muito doloroso e eu odeio sofrer. Seja por qual for o motivo.

Júnior!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Angústia Necessária.


Colocou o disco para tocar novamente. Aqueles velhos e cansados acolhedores das dores de cotovelo dela. Sentiu o piano invadir a sala de estar. Sentiu as cortinas dançarem a canção repetidamente. Sentiu o arrepio causado pelo sussurro de uma voz mansa que saia da vitrola. Quis dançar junto aos tecidos. Mas apenas ouvia. Deixava seu corpo cansado no chão, nos móveis, nas paredes para que de alguma forma, imaginária, talvez, um príncipe montado num cavalo branco a levasse daquele lugar monótono. Nada de cavalos nem muito menos príncipe. Ela esperou por mais duas músicas repetidas. Sua garganta já gritava a falta de umidade. Quis beber água. Quis fumar outro cigarro. No entanto, a preguiça e o desânimo foram maiores que a forçaram de permanecer intacta no tapete chinês, nos lençóis de seda, nas toalhas de renda, nos quadros cubistas. Nas suas extremidades, o gelo do vento que entrava entre as fibras e espaços nos passos de dança das bailarinas de seda fez uma escultura dos seus membros. Já no seu busto, o gelo de seu peito rasgou-lhe o pescoço e dilacerou seu colo. Nenhuma dor. Ironia. Apenas vontade de ouvir mais uma música. Permanecer no frio por mais alguns minutos. Deixar-se enlouquecer pelas mesmas canções que corriam pelo quarto. Deixar-se morrer pela vontade seca de fumar e beber água ou alguma outra coisa sentimental. Por mais irracional que isso seja, ela o fez. E assim, mais uma vez tocou aquela música que a acolhia sem nenhum pranto. Só na necessidade de permanecer na merda por mais alguns instantes.

Júnior!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Descanso.

Agora eu posso deitar nesse verde. Tocar na grama e sentir todos os grãos derramados pelos pássaros. Sentir o cheiro roxo da amoreira carregada de frutos. Saborear o azul das nuvens formando desenhos enigmáticos. Dançar com o vento a valsa silenciosa e fresca no meu rosto. Queimar o sol nas minhas bochechas róseas estragadas pela juventude. Esfriar os meus pés no orvalho da manhã tão sadia.

Agora eu posso esperar a noite chegar sem nenhuma preocupação. Sem medo do escuro e dos monstros que me disseram existir debaixo da cama. Posso contar as estrelas com o dedo sem a luz da cidade que vem interromper seus brilhos. Sentir o cheiro de maresia que entra nos meus olhos e me faz lacrimejar. Correr desnudo pela areia dessa praia de olhos fechados para não ver a repressão dos outros olhos secos.

Agora eu posso dançar livremente pelas praças. Pendurar-me nas árvores para tirar frutas frescas. Flutuar no riacho que me aconselharam não entrar. Acolher as flores mais lindas do meu jardim agora bem cuidado. Expor meu riso pelas calçadas e ruas molhadas de calmaria. Esquecer do tempo antes de voltar para casa nos meus carnavais.

Agora eu posso terminar de pintar meus quadros surreais com as cores mais vivas que encontrar. Limpar meu relicário e enfeitá-lo com sonhos bons. Comer essas besteiras que minha mãe sempre me prevenia comer quando eu era criança. Curtir essas chuvas de fim de verão morninho. Cuidar da minha plantação de tulipas no quintal de casa. Fazer meu balanço de pneu tão esperado. Terminar de compor minhas músicas sem nenhum ruído de tristeza. Limpar meus livros empoeirados e lê-los novamente. Olhar-me no espelho. Não ver minhas marcas e dizer o quanto me sinto aliviado.

Júnior!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Congestionada.


Acho que devia pensar menos no pensar, sabe? É confuso parar de alimentar meu cérebro, mas eu devia, mesmo assim, tentar estagnar essas lembranças e projeções mal sucedidas que coçam minha cabeça. Não sei ao certo quando é o momento exato que elas me invadem no meu dia. Mas acho que é quando estou tentando resolver algo e acabar com o que me corta o fio de tranqüilidade nessa minha caixa que eu preferia vazia. Só então poderia dormir melhor, cultivar minhas flores perto da janela, alimentar meu peixe solitário, limpar as pedras empoeiradas que roubei da praia no último descanso.

No fundo, creio que penso mais nessas porcarias. Nessas coisas de amor, tolices do dia-a-dia e no meu próprio futuro. Isso está me perturbando. O que eu não penso é que deveria não esquecer que ando sem amor pra cultivar, com tolices para eliminar de uma vez só junto com esses compromissos que me sufocam, no meu libertar dessas noções de futuro que sempre quis agarrar. Pensar talvez no porque de pensar nessas coisas. Se ao menos eu tivesse como controlar a força do pensamento e deixar tudo menos turvo diante do meu poço de inconstância, eu estaria melhor. Mais confortável e menos pensativo.

Deixaria tudo aos poucos se esvaziar por dentro dos meus olhos. Apagaria essas memórias como um disco regravável. Amenizaria essa enxaqueca que não me deixa dormir. Pensaria um pouco menos no que eu quero ser e com quem eu quero estar. Porque se eu parasse pra pensar no que realmente importa, perceberia que não adianta forçar algo que eu não tenho em mãos. Nada relativo ao amor e ao futuro breve está pra acontecer do jeito que eu quero. Então, não devia eu, me importar com isso. Tenho muito tempo pra pensar no nada, ainda. Devo parar com meu ponto máximo de querer decisões e continuar sentado nessa grama com o sol nas costas me mantendo vivo. Respirar. Abrir a boca e sentir o gosto do vento. Fumar mais um cigarro, talvez. Esclarecer na fumaça o meu modo de pensar para o agora. Desvanecendo-se com as dúvidas.

Júnior!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

É o que predomina.


Só quero ficar aqui no meu canto com meus textos e discos já cansados. Com meus desenhos abstratos e meu cinzeiro encardido. Nada de tristeza, por mais que possa parecer. Estou bem aqui, reservado. Estou ouvindo até aquela música que dançávamos juntos. É que dessa vez eu posso te deixar em outros braços porque não vai doer, inflamar ou sangrar. Foi tudo muito bom e sei que foi de verdade. Acho que pude pressentir por cada momento a sua mão na minha naquela poltrona do cinema, seus braços nos meus ombros na madrugada depois dos carnavais, seus olhos cruzando o meu silenciosamente entre os carros em câmera lenta, minha barriga gelar quando você se aproximava quando ia me beijar, minhas maçãs do rosto vermelhas de ciúmes. É, são essas coisas que sempre sentimos quando nos apaixonamos perdidamente. Essas imaginações e absurdos que a física não pode explicar. Essas coisas que nos fazem ficar perdidos nas decisões mais irracionais que não tínhamos antes de nos apaixonarmos. Sei que senti.

Agora sinto que não vou maltratar seu nome depois de tudo. Não vou rasgar suas cartas com aquele perfume doce. Não vou vomitar sua saliva quente guardada no céu da minha boa. Não vou despejar nos bares seus sorrisos mais sinceros. Não vou te matar com minha boca infame pelas praças. Acho que faria isso se ainda fosse aquele menino com medo do amor de um tempo atrás. Hoje eu não sou mais ele. Sinto em dizer que cresci com meu interior e que não vejo o porquê de te maldizer e chorar com sambas tristes de amores acabados. Pra mim nada acabou. Apenas está começando em outros ares, outros bares e em outros braços. Ninguém carregou a culpa e isso é o que me deixa confortável. O amor é que sempre predomina, sabe? Seja ele o meu ou não, o seu ou não. Isso é bom e não é hipocrisia da minha parte. Estamos livres de tudo e presos ao custo de novos risos, olhos, coxas, beijos e abraços. Indo para outros rumos com algo nosso guardado bem lá no cantinho confortável do nosso peito.

Júnior!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Senhorita Intolerante e Incansável.


Nesta manhã passei a gostar um pouco menos dela. Não me causou infortúnio nenhum, quero que fiquem sabendo. Não obstante, causou um efeito doloroso na vida do homem velho e sábio que morava no casebre perto do rio, um efeito fingido surrealista que não passa de realidade no quarto da menina que um dia encontrei perdida na praça, um efeito borrado de tristeza de tanta água na parede da sala da senhora recém casada. A parede que era azul.

Acordei sem pensar nesta última madrugada para onde iria meu sono e o meu sonho embalado com as cantigas do telhado numa madrugada de águas. Algo atormentava meus olhos. Algo deixava inquietos meus ouvidos. Algo chorava de agonia a minha boca seca sugada pelo desespero das vozes que passeavam pelo meu quarto.

Levantei-me, ainda atormentado e demente pelas horas dormidas, vesti meu casado americano, calcei minhas sandálias úmidas pelo frio e cai na rua. A coisa que me fizera acordar e tirar meu sono parecia estar se concretizando diante meus olhos nos restos de fogueira, nas decorações com bandeirolas coloridas, nas palhas verdes de coqueiro estiradas em forma de casinha.

Nada fazia sentido, mas acontecia. Devia ser pela minha mente retardada pela cama e o travesseiro. Eu não sei como dizer. Mas eu escutava ainda as vozes que me puxaram da cama. O canto das águas no telhado parecia aumentar o volume como se quisesse que todos se alienassem com sua música que eu continuava a julgar de mau gosto, no momento.

Minha visão, minha mente, meu corpo cansado foi ficando menos turvo e pesado. A névoa que acontecia somente nos meus olhos foi se dissipando entre os pingos e eu pude perceber mais que simples vozes abaladas. Havia corpos trêmulos com vozes e músculos exaustos. Aquilo que me despertara do conforto foi o bando de desesperados que abandonavam suas casas para a verdadeira dona delas invadir. A ironia seria se eu dissesse que ela não bateu à porta antes de entrar. Ela foi educada. Limpa. Serena por toda a noite. Deu até o itinerário para os moradores que habitavam suas residências se programarem.

Então pude perceber que estava mais que certa em entrar sem limpar os sapatos, pedir licença, dar bom dia e aceitar o chá na sala ainda viva. Não existiu nesta manhã o limpo nos tapetes, o chá de calmaria, nem muito menos o bom dia. Apenas estava triste a manhã.

Móveis voavam desembestados pelos braços rudes e mortos pelo trabalho. Casas eram pichadas pelo barro que a serena proprietária trouxera de longe entre as árvores. Brinquedos morriam nas mãos da correnteza que não brincava em serviço. Fazia parte do acordo entre a senhorita silenciosa e os demais para amarrarem em suas carruagens qualquer tipo de sonho ou vitória conseguida nas vidas desses pobres.

E perdurou por muito tempo neste dia cinza. Não deixou vestígios do casebre perto do rio. Não desenhou nada de infantil no quarto da menina. Não pendurou nada de bonito para desejar boa sorte na parede da senhora recém casada. A parede que é marrom.

Quis desamarrar as bandeirolas coloridas penduradas que fingiam animar e dar uma dose de contente nesta rua. Quis se alimentar das palhas de coqueiro que nutriam a única parte viva da entrada principal.

A rua agora é cinza e a vida já não está tão perceptível com a nova vizinha que cantarolou a canção que me perturbou a noite toda. A canção estava alta, tão alto, que impediu Deus de ouvir as preces desse povo sofrido que segue na desgraça escancarada nas ruas e praças destruídas pela dona.

Creio que devo voltar para a cama. Notícias correm rápido demais. E espero que dessa vez seja uma boa para me despertar.

Júnior 18/06/2010 (Dia do Tormento da Chuva)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sinal Fechado!


Quando abandonamos na rua a mesma calçada e lutamos contra o congestionamento das nossas essências, percebi que você ainda consegue me fazer gelar as mãos, socar minha barriga com a sensação estranha e fria da paixão, borrifar o corado nas minhas maçãs do rosto, dar a largada para o meu coração desembestado sair disparado pelo caminho cheio de pedras para me impedir os belos saltos contentes nos seus pulsos de sangue quente.

Sentado ali no mesmo banco que costumávamos passar as tardes comendo doces e saboreando o vento, percebi que você ainda consegue maltratar meus lânguidos olhos sem dar-me a presença dos teus, cuspir na minha cara a realidade das minhas projeções para um amor perfeito e excêntrico – que eu insisto em acreditar que ele pode existir mesmo tendo as provas nas mãos e no peito que ele jamais acontecerá – fazer-me não ter noção dos amores que eu posso embarcar me jogando de cabeça sem nenhum pingo de consciência.

Mesmo de longe te observando entre os carros que passavam por mim em câmera lenta, percebi que você ainda consegue me gritar - mesmo calado - a falta de destino que essa relação pôde ter, o alertar do brilho dos meus olhos por uma ilusão que eu não deveria alimentar, a cantoria dos planos escorridos por água a baixo, a falta minha do aprendizado com outros amores, a reprovação nas matérias relacionadas ao coração.

Na mesma e antiga estação de trem onde tivemos a ajuda do destino para nos conhecer depois de um esbarro, percebi que você ainda consegue me deixar esperar por aquilo que nem sei o que é, me deixar mofar no ponto e passar do ponto, me deixar escurecer as minhas expressões num dia claro ensolarado.

No meu quarto, o mesmo onde passávamos a luxúria com o suor do outro nos nossos corpos, percebi, assim, no meu canto, quieto, abafado, seco, que tenho de escolher melhor minhas paixões, meus sexos com noites bem dormidas, meus sonhos para as noites mal passadas. Percebi o quanto envelheci diante os poucos momentos que presenciei seus ombros, minhas mãos entre suas pernas, suas unhas nas minhas costas, seu gozo nas paredes daquele velho lugar sem iluminação e cheio de incensos. Percebi que não posso querer-me sob seu corpo porque isso não me faz e nunca me fez bem. Percebi que devo continuar paralisado com minhas plantas presas à sacada da minha janela, que devo deixar secar as flores que ainda não coloquei dentro dos livros, que devo acabar-me ascendendo mais um cigarro, que não devo chorar mais nas mesas dos botecos fétidos, que devo riscar as palavras suas do meu teto antes de dormir, que devo permanecer com meu sinal vermelho para o amor e continuar com ele fechado por bom tempo, sem o contigo, sem o conosco, sem esses tais de eternos amantes. Porque assim percebo melhor o comigo.


Júnior.