sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O que se perdeu!

Ela entrou no carro preto tingido de poeira sobre o sol de meio-dia. Os pingos de suor na sua testa faziam parecer-lhe uma senhora que trabalhara o dia inteiro e esperaria pelo seu marido com o jantar na mesa. Quente e saboroso, esse amor, esse jantar. Apenas o da trabalhadora.

Conferiu as malas, novamente. Tudo no lugar, tudo dentro, tudo separado do jeito que ela precisava e se sentia melhor. Sentiu inveja daquilo que estava conferindo. Usava a blusa xadrez azul que ganhara do seu namorado. Perfumada e atraente, olhou-se no retrovisor e viu o quanto estava se derretendo nesses últimos dias de inverno íntimo dos seus olhos. Chuvas durante três noites e três carteiras de cigarro. Nada sobrava dessas mal dormidas. Apenas a maquilagem borrada diante o espelho e o cinzeiro pedindo socorro pelo excesso. Excesso de tudo, eu digo. Dos cigarros queimados, da sujeira que estava a sua vida, dos amores que passeavam pelo apartamento e atormentavam-na durante essas noites.

Com os olhos no espelho borrado pelo mormaço, percebeu o que não tinha se borrado na ultima manhã. Pois não havia choro naquele dia, e ela estava decidida, que se alguém chorasse, não seria ela. Estava cansada dessas traições. Dessas coxas perfumadas de outros corredores. Dessas barbas roçando-lhe o juízo e a bunda. Ele precisava saber de tudo. Precisava saber o que havia sido escolhido para a vida dos dois. Ele tinha de saber o que foi sofrido e o que se perdeu no meio do caminho entre banquinhos molhados de conhaque e de gozo.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Minhas Saritas!


Aos meus amores, que me presentearam com a mais pura beleza da amizade, aos meus integrantes da Sarita, deixo-vos um abraço enorme e quero que fique bem claro: “Espero que a distância não acabe com o que construímos em quatro anos”. Terei vocês para sempre, mesmo no meu inconsciente, como o fruto do meu cultivo por um amor fraterno que ninguém poderá enterrar e estragar. Nem mesmo o tempo, porque pra mim isso tudo será gravado aqui na minha memória. ]

Ah... por que o tempo passa tão veloz?!
Por que ele não pára pra gente respirar?!
Ah...por que o teu silencio me traz a paz?!
Segura a minha mão, não te deixo partir
quando se lembrar de mim
feche os olhos, olhe pro céu
quando me quiser aí
diga alto o meu nome...que eu vou
ah... não fique triste pois nada acabou
só dê um sorriso que o tempo vai voltar
ah... espero contar de novo os dias longos
e diminuir a falta de você, de você
quando se lembrar de mim
feche os olhos, olhe pro céu
quando me quiser aí
diga alto o meu nome... que eu vou

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Os Azuis

E nós, assim, com esse nosso jeito desengonçado, ainda vamos mudar isso tudo. Ainda vamos tirar essa arrumação feia e mal acabada de inverno retrasado da nossa escadaria e colocar esses enfeites que compramos na última viagem. Linda Portugal. Graciosamente dedicada a nós naqueles tempos. Ainda vamos fazer os doces que ficaram derretendo com o calor nas folhas do nosso caderno de receitas cheio de trigo em cima da mesa suja. Ainda vamos estampar sobre os viadutos dessa cidade nossa retomada ao sorriso de criança. Aquele mesmo, de dez anos atrás, onde me chamavas de um nome engraçado e me acolhia com um nome de uma cor, justamente por causa da minha camisa preferida. Vermelhos. Creio que não apenas o meu vermelho tecido sobre o peito, mas o meu tecido avermelhado encoberto pelo peito, o cheio de sangue, o que bombeava as melhores sensações por todo o corpo. Era isso, penso. Os meninos azuis e os gestos vermelhos. Os quais, quase ninguém via sobre as janelas do fim de tarde com aqueles copos de refrigerante.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O jeito surrado, mas esquecido.

As pessoas têm de entender que o "Eu te amo" não é o "Bom dia" que damos ao porteiro, ao professor, ao nosso cão. Eu amo meu cão, e digo que o amo, além do bom dia que dou. Se isso é tão desnecessário, entender que ele, o amor, não foi triturado no liquidificador com alguns rostinhos bonitos, coxas e doses de conhaque, vou ter que me recusar a amar, ou desistir do amor. Assim, eu não poderei conhecer essas nucas que estão por me esperar, com a mente vazia e iludida.

Não desejo nada para quem comete esse egoísmo de amar construído pelo modismo de dizer coisas bonitas e carinhos mal tracejados no corpo do outro e sorrisos entre fumaça de cigarro barato. Apenas desejo a sorte maior ainda que esse amor comprado, de prateleiras e vitrines. Que sejam felizes com essa forma de amar, porque eu? Eu não evoluo nisso tudo, quero me estrepar em um futuro breve de maneira que eu me sinta bem, gostando de estar ali, na dor, dentro do cinzeiro me queimando com essas brasas de amores, sorrindo com cara de bobo mesmo sofrendo. Porque pra mim, isso sim é amor.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Sabe o que eu queria agora?

Poder deitar no teu peito e te ouvir. Teu coração e tua voz, mansa de criança carente me falando do teu dia, dos teus medos, das tuas paixões pela vida. Ver essa tua magia de pessoa singular escorrendo por todas as cortinas dessa sala, irradiando tudo, abrindo meus armários e me gritando na alma que quer ser minha flor, meu perfume, minhas canções, até no pra sempre, mesmo sabendo que é muito tempo e que podemos ser engolidos por isso tudo.

Eu queria você nesse instante. Seus membros pra tirar um cochilo após o almoço, dormir abraçado contigo no tapete do meu quarto. Encolhidos, ali, como quem tem medo do mundo e finge pra ele que não o sente. Eu queria você, uma dose de você. Uma apenas não, mas uma, mais duas, três, quatro e quantas for capaz de me dar nessas noites de monotonia.

domingo, 28 de novembro de 2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Bruniuhhh!

"Hoje é seu aniversário
Corpo cheio de esperança
Uma eterna criança, meu bem
Hoje é seu aniversário
Te dou só noticia boa
Também daquela pessoa por lá
Hoje escolha passar o dia cantando
De hoje em diante, jure felicidade a você
Na saúde, na saúde, juventude e na velhice
Vá pelos caminhos brandos
A sua proposta é boa, eu sei
De hoje em diante, tudo se descomplicará
Com o nariz de palhaço
Rirá de tudo que te fazia chorar
Cercado de bons amigos, te protegerei
Numa mão bombons e sonhos
Na outra abraços e parabéns"

Feliz Aniversário, Querido!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A flor da perda.

Sempre temos de conviver com a perda. Por mais que não queremos deixar algo sair pela porta, cruzar a esquina e nunca mais voltar, sempre devemos estar preparado para o que vai embora. Sempre acontece. Sempre. Até mesmo com as doces ligações que temos com o nosso passado.

Quando eu arranquei a flor do jardim da escola, aos treze anos, ali a vida dela estava indo embora. Aos poucos, a perda anunciou-se dentro do copo com água e açúcar e com a flor morta. No final de tudo. Sempre vem esse fim. Com ele, veio o meu gesto de carinho pra você e com ele a perda da flor que penas continuou viva no seu baú de lembranças de flertes infantis ou até mesmo nesse livro empoeirado que você me emprestou.

Avistei ele ali, em cima da estante, o livro coberto pela poeira, recheado de páginas com sonhos de um tal escritor que não lembro o nome e a flor juntamente com a perda. Nada existiria mais, a não ser a memória dessas coisas que vão embora e que deixam essas poeiras em cima de tudo. Se é que a memória existiu. Se é que tudo isso de infância existiu. Apagaram-me essa flor do livro. Deve ter acontecido de novo, a perda, porque eu não me recordo de quando você partiu e não teve mais nada de bom pra ler nesses meus versos de criança com memória de amores perdidos.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Outubro de Manhãs e Amores.

Penso no que foi transformado nesses últimos dias. Tornei-me um menino que está em busca de um mundo de fantasias sem perder a minha realidade sóbria que está desenhada no fundo de uma garrafa. Nesses botecos, nesses banquinhos, nesses espelhos que refletem uma luz colorida sobre meu rosto, penso nas pernas que não estou querendo mais roçar na barba. Penso nas bundas que não estou precisando apalpar para me sentir desejado e com o poder da posse por aquilo que nem é meu. Penso nos falsos beijos que eu não precisarei dar entre corredores mofados pelos sexos distorcidos de pura falta de amor próprio. Tudo fede, tudo se derrama nas mesas, tudo borra de mancha escura e sem vida minha contemplação por mim mesmo. Até o agora/outubro chegar trazendo essa sensação resgatada que, talvez, eu nunca a sentira antes.

Quando essa lua iluminou minha pele nua misturada com esses lençóis gozados depois de mais uma noite de amor solitário, eu não tinha percebido o quanto eu estava brilhante nesse espetáculo fabuloso que mais parecia ter saído dos livros que eu li quando criança. Tudo delicado dentro dos lençóis úmidos. Minhas coxas quase azuis de tão brancas naquela maciez que camuflava minha indecência pareciam um ninho de amores passados-inacabados tentando achar um espaço naquele show de pernas e lua. Tentei não olhar para aquela cena medíocre de auto compreensão, mas não resisti. Sou muito curioso. Tenho a necessidade de estar sabendo disso daquilo de outro de tudo que me rodeia. Tenho de estar com os ouvidos latejando de enxerimento para ouvir aquilo-que-não-foi-dito-quase-engolido-de-arrependimento. Porque assim eu saberei daquela boca o que se passou em mente em poucos segundos que não escorreram pela saliva a fora. Aquilo que poderia ter me matado ou me encaminhado ao paraíso cheio de flores e bem-me-queres num jardim que eu poderia ter ganhado com as flores/palavras não ditas.

Quero sempre espiar pelo buraco do lençol essa briga de pensamento versus lua iluminando coxas. É algo mais forte que minha própria vontade. Essa vontade-obrigação segue-me entre carros e avenidas vazias de gente interessante. E a dou corda e chave pra ela entrar e dizer tudo que pensa sobre mim, porque assim eu vou estar informado sobre mim mesmo.

Parece, às vezes, que as pessoas/coxas/lençóis/luas sabem mais de mim que eu próprio. Isso é o que me mata, quero saber o que sou dentro desse cenário onde eu deveria ser o protagonista da peça que eu mesmo escrevi. E não sou destaque, nem nunca quis ser, mas o meu canto no palco eu sempre quis ter com uma luz me deixando ser visto por tudo e por todos. Pelo menos essa da lua. E isso não é tentativa de aparecer, é apenas meu desejo de deixar gravada minha participação nesse teatro de vida real muito mal ensaiado tendo em vista sempre esse improviso que faço um malabarismo com quatro mãos e pés e olhos e bocas e línguas e todo o meu resto.

Depois da luz, lua e lençol, não consegui dormir por muito tempo. Na verdade acho que, no mínimo, cochilei o tempo necessário para babar na fronha amassando minha cara. Sei que ainda sonhei com um amor que tava mofando ali na geladeira junto com os morangos de Caio F. Pensei ter visto eles se estourarem dentro da minha cabeça junto com esse amor, se é que eu posso chamar de amor. Mas não vou falar do amor em si, não desse que ponho em dúvida a sua existência. Sonhei, nos minutos apagados com muito mais luz, agora pela manhã. O amor passado de inconstância me visitou e deu-me um beijo no canto da boca. Primeiramente nos cruzamos pelo corredor da minha faculdade e depois ele entrou na minha sala me chamando para conversar e ouvir minha voz e sentir meu perfume cítrico e me fazer gozar com seus olhos escuros e me dizer que estará tudo bem, assim que eu acordasse. E esteve. Eu acordei com ele na cabeça me chamando para dançar numa valsa real onde eu não me importava com seus pés para não pisar ou machucar. Apenas queria dançar livre ou acompanhado porque tinha encontrado outro alguém pra ter as formas do amor, agora, no amor presente. No meu sonho, ele, o amor passado, tinha me dito coisas bonitas que eu queria escutar de um alguém, aquelas que fazem o seu coração bater mais rápido, no pulso das piscadas de olhos do outro amor, fazem sua barriga gelar de tanta emoção, suas mãos suarem e seus olhos se encherem de lágrimas. No entanto, não movi nenhum músculo e nenhuma gota de gélido ou lágrima foi suada na minha barriga ou r. No fundo, eu sei que essas palavras chegaram ao meu ouvido tarde de mais, e quando isso acontece não me importo muito com o ritmo delas e com sua sonoridade calma e sedutora, mas sim no que já foi passado e morto e enterrado e quase esquecido. Sei que na manhã que chegou, eu quis o meu amor presente, e isso foi o que me bastou para me alimentar matinalmente no dia de hoje de lua de lençol de sonho e de amores.

Apenas sei que o amor passado foi se embriagar de vez e terminou esquecendo meu nome numa mesa de bar. E eu aqui, pelado na cama com luz, lua, lençóis e amor presente. De manhã, com muita sede dos meus olhos novos que me fotografam assim, despido, com muita fome da boca que me alimenta de saliva, com muita ânsia do toque do fio de cabelo cheiroso feito de orvalho nessa manhã de amor presente.

Sinto o cheiro do café sendo preparado e isso me abre o apetite. Tenho muita fome, seja lá do que for. Quero comer o pão fresco com manteiga e bolachas doces e café bem forte de açúcar e coxas de sobre-a-mesa e bunda de entrada e amor presente me preparando essa fome matinal que tanto me enche de alegria pra essa rotina monótona que tanto está passando pelos becos e avenidas desse quarto/cama/vida/dia-a-dia, dando lugar ao bloco da auto estima elevada a N, transformando isso tudo em outubro. Será que estou acompanhado nesse mês de café e dança e manhãs e lençóis e luz e lua e amor presente?

Tenho muita fome, e estou lambendo os dedos de doce de café e as migalhas de pão fresco sobre a mesa. Não quero perder um grão se quer deste amor presente que me mata a fome todas as manhãs. Servidos disso tudo? De fato, eu não consigo saciar minha vontade extrema de estar dentro deste presente. Ele foi me dado assim, calmamente, num dia qualquer no mês de outubro entre garrafas de cerveja, cigarros e coxas dançando para lá e para cá. O lugar ideal para tudo acontecer. Sem querer dizer que acredito nessa coisa de lugar ideal. Eu dei uma ajuda ao destino para juntar nós dois, se é que também posso acreditar nele. Quando aceitei o presente passado de outras mãos para o meu colo. E ele quis se alojar por um tempo indeterminado. Eu, agora, cultivo essa raiz no meu ventre, prestes a parir um carinho e um toque na sua testa suada depois de um pesadelo ou trepadas entre cama-mesa-banhos. O deixo ouvir meu suspiro que se entrelaça ao som dos sabiás cantarolando o nosso romance presente amor. Um brinde de café ao outubro, amores passados, amores presentes e essa lua que tanto me visita derretendo meus pensamentos. Eu simplesmente sinto, não penso. E isso tudo me basta.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Vontade.

Uma vontade me grita dentro da boca para eu silenciar num beijo, seco e sem dúvida, todo o desejo de você que sinto agora. Uma vontade queima-me os lábios com esse gelo de ansiedade por um toque seu, um olhar-delicado-mudo-sem-palavras com todo o vocabulário que quero ler e escutar, ou simplesmente a doçura da tua presença andando com os meus chinelos velhos mastigados pelas bocas de quem um dia me cortou o coração.

Quero que saiba, sobre minha vontade, que te espero com essa fotografia empoeirada e minha cortina que cansou de dançar com o vento. Eu te espero. Sentindo ainda este teu perfume barato, mas viciante, que ficou preso nas paredes do meu apartamento. Ouvindo tuas canções repetidamente na vitrola estragada pelas dores de cotovelo. Querendo tua mão segurando a minha nessa valsa que teima em me matar de saudade, aos poucos, sem nenhum dedo teu, sem nenhum cílio, sem nenhuma costela contável nas tuas curvas. Sem teu beijo me enchendo de vida depois desses dias de falta, eu fico apenas assim, na vontade de te ter em meus braços e beijos e peito e olhares e tudo isso que me rodeia.

sábado, 6 de novembro de 2010

A fome e o frio da falta.

Hoje foi dia de frio. Não aquele gélido que comparamos com algo enfermo. Foi um frio bom – convidativo – que me abriu o apetite logo pela manhã. O lençol ainda estava suado e penso que estive com febre na noite passada. Uma poça d’água se formou na fronha – saliva – picolé derretido de baba. Acordei puxado pelo arrepio que me fez enrijecer os mamilos e todo o resto. Saí cambaleando da cama com minhas meias coloridas de desenho animado que de primeira vista faziam-me parecer uma criança estranha no meio dos brinquedos. Esbarrei nos livros que deixei no chão. Espalharam-se idéias. Olhei no banheiro o meu rosto amassado no espelho abafado e meio soado. Li saudade nos olhos que me fitavam. Escovei os dentes com aquela pasta com gosto de chiclete. Sorri, mas não houve felicidade. Apenas o sentir da falta do algo com uma anemia de alegria. Turvamento de lembranças. Comi as torradas que estavam quase esfareladas de ontem. Acompanhei a fumaça do café quente no ar. Doce-meio-forte-demais. Calcei minhas sandálias e cai no mundo.

Houve chuva. Não houve pombos. Não houve insetos coloridos. Nem pessoas na rua. Apenas houve chuva. A dança das árvores com a falta de vento. Trouxe consigo aquilo que foi pairando sobre minha epiderme. Gotas de nuvens dissolvendo o desejo de fome de companhia, a fome de Lispector.

De olhos fechados, na chuva – com fome – permaneci, formei sua imagem ao meu lado. Segurei a sua mão. Vi ainda seu rosto rindo tornando-se parque de diversão para os pingos que caíam. Senti seu calor no frio. Senti até teu cheiro misturado com o da terra molhada. Depois houve apenas o frio. Não aquele gélido ar que comparamos com algo enfermo. Esse eu senti com a roupa molhada grudada no corpo. Mas foi o frio bom – o convidativo – o que me abriu o apetite de presença. Essa, a qual eu não consigo ter numa simples chuva.

Sinto que o amo. O frio. Amo essa sensação de dor misturada com lembrança/projeção para o futuro breve. Amo o que quero gritar para a rua quando sinto arrepiando-me os pêlos. Amo o que me faz querer tua presença na chuva. Amo esse frio que é tão incrível.

No entanto, penso: Devo sair da chuva para não ficar mais doente que estou; Devo esperar você chegar para matar a minha fome. Meu apetite está insaciável e com esta chuva e este frio só o fazem aumentar. Vou para casa, estou decidido. Minhas meias de desenho animado, meus livros espalhando idéias, o chá morno-meio-fraco, o cigarro e o sofá quente, tudo no aconchego me espera. Espero. Mas ainda continuarei com fome.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Banquete de saudade.

Apenas senti sua falta depois do almoço. Comi tudo, como minha mãe havia me ensinado quando criança. Tomei minha xícara de café, meio-morno-meio-doce-demais. O sono pesado que me embalou na cama úmida do meu último pesadelo fez com que eu sentisse seu cheiro de salgado feito por vovó em dia de domingo. Uma mistura agridoce das frutas nas tortas com muito recheio. Apenas foi assim. Invadiu-me o quarto pela janela feito onda desenhada no ar, prestes a me tirar flutuando como acontecia nos desenhos animados. Derreteu-se sobre minhas pálpebras e encharcou minha mente do seu carinho que agora eu não pude ter.

Cheiro viciante que me encheu a boca d’água. Mistura da sua saliva com minha sede dos teus beijos e perfume e voz e braço e coxa e bunda. Tudo num pacote só. Correspondência que eu queria sem devolução na calçada da minha casa. Pelo menos por esta tarde de sono e saudade.

Quero seu cheiro impregnado nas minhas camisetas suadas de tanto amor. Quero seu cheiro nas minhas cuecas depois do sexo. Quero seu cheiro em minhas mãos depois de sentir cada ponto do seu corpo e delinear-te o meu desejo além de saudade e lembrar. Quero tudo isso além desse cheiro que se agarrou nas minhas narinas feitas de sonos solitários depois do almoço.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Entre cama, mesa e banho após amor.

Então você se camufla dentro dessas camisas Polo amassadas e diz que está tudo bem? Finge que tudo não passa de um mal-estar/ciúme-incoerente e fuma um cigarro só pra disfarçar tamanha tensão nos olhos. Baixa a pressão. Tonteira. Quase dorme. Brinca de ser criança carente entre copos de conhaque e pernas entrelaçadas por debaixo da mesa. Não vejo pouca falta de incoerência.

Me pergunta sobre o amor. Eu respiro e digo que é aquilo que sinto quando estou no estado de demência demasiada por alguém, sem odiar a tolice do próprio sentimento, sem querer perceber a dor que sentimos quando não dão a mínima por nós, bobos-de-amar, e mesmo assim queremos esse amar que tanto nos maltrata, porque pra mim é isso, só sinto que estou amando quando me dói o peito por algo que as vezes nem sei explicar ou não quero para não ter a desilusão de acreditar que aquilo vai deixar de ser sentir para ser pensar. Amor só é bom quando me dói.

Você retruca exalando o cheiro das flores que te dei. Retruca chorando o perfume desses anos que estávamos entre fumaça, vinho, cama, mesa e banhos depois das trepadas. O perfume de desejo. Um cheiro bom quando se tem compatibilidade. Cheiro de dependência do meu modo de companhia que juram ser boa e que eu nem acreditava ultrapassar o nível de acompanhamento, apenas.

Respiro. Penso naquilo que me arrancaram há anos no colégio entre livros, cartas de amor e bilhetes anônimos onde eu era o admirador secreto. Penso no que deixaram nos encostamentos nas ruas junto com meu vômito depois das doses de cachaça, nos bancos dessa cidade que fede a intolerância e a falta-do-que-se-amar. Penso e minha cabeça dói. Parece que está ainda inflamada de tanto tentar tirar essa sujeira daqui de dentro. Não gosto dessa bagunça. E ainda sem querer deixo você perceber o meu pensar e às vezes parece estremecer com o meu achar do amor.

Só penso que ainda não seja instantâneo. Não coloquei meu calor com ele no fogo e não o temperei. Pronto. Após três minutos eu posso comer você e o amor. Não penso dessa forma. E seria burrice minha pensar assim. Não os achei na prateleira do mercado e não os procuro nas vitrines de lojas de grife. Apenas vou assim, calado, com poucos sonhos guardados debaixo do sol ardente que não perdoa tentando não olhar para o relógio que sempre quer me avisar a tardia dessa espera ou que é cedo demais para cultivar e adubar com merda o tal do amor.


domingo, 31 de outubro de 2010

Na vulnerabilidade das coisas.

Noite de sábado. Fria. Só. Desinteressante.

Chegou com mais uma ressaca desses sexos mal dormidos de fim de tarde. Procurava em outros corpos o que não tinha mais debaixo dos seus lençóis. Não havia mais o travesseiro babado. O lençol gozado. O livro sobre o criado-mudo paralelo ao seu. Só as fotografias velhas que a fazia doentia de saudade, o cinzeiro quase mofado de madeira, o par de meias azuis intactas no canto do quarto.

Tirou seus Scarpins vermelhos que pareciam sangrar na poeira to tapete velho que rasgava a monotonia da sala. Abriu as cortinas claras que seduziam o lustre com sua dança na brisa silenciosa. Despejou o casaco xadrez contemporâneo por cima das cartas úmidas de lágrimas das noites passadas. Esparramou-se no chão. Frio. Fria.

Na vitrola: Fake Plastic Trees – Radiohead. Olhando para o teto, vagarosamente, ainda tonta com o vinho da esquina vagabunda, ela grita calada: “But I can't help the feeling/ I could blow through the ceiling/ If I just turn and run”. “Mas não posso evitar o sentimento/ Eu explodiria através do teto/ se eu apenas me virasse e corresse.”

Com o seio inchado pelo oco que corre em seu peito, ela tem um pequeno flerte. Necessita de uma outra voz que não seja a sua. Uma sede gritante lhe empurra nessa imaginária calmaria. Alivio falso. Ela torna isso real. Pelo menos no ouvir da voz:

Alice:_Theo? Theo? Te acordei?

Theo:_ São que horas, Alice?

Alice:_ Uma e meia da madrugada.

Theo:_Oh, não acha que é meio tarde para ligar para alguém?

Alice:_Me desculpe, mas precisava falar.

Theo:_Não precisa se desculpar, Môme, não estava dormindo. Você está embriagada, não é?

Alice:_Não, apenas tomei a última garrafa de vinho daquele boteco vagabundo. Não comece, por favor. Não foi pra isso que liguei.

Theo:_Como quiser, continue.

Alice:_Theo, estou triste. Ando chorando muito esses dias. Minha cabeça parece que lateja esse amor que está inacabado me fazendo lembrar o quanto vivemos juntos.

Theo:_Alice, isso não são horas para você falar dessas coisas. Já é um pouco tarde demais pra você querer algo meu. Você é tão independente que vai superar logo, sei disso. Só não posso dizer o mesmo de mim.

Alice:_Então porque você não volta? Faça-me feliz. Entre por esta porta deixando sua chave presa nela para sempre. Quebrando o silencio desses corredores com o seu sapateado. Perturbando os visinhos com nossas loucuras na cama depois da meia noite.

Theo:_O amor é limitado, Môme, e você sabe disso. Uma hora tem que acabar. E a nossa chegou. Ele ainda arranha minhas costas quando vou dormir, mas sei que vai curar. Quando? Eu não sei. A gente nunca sabe.

Alice:_Desejei tanto poder dormir com você. Passaríamos a noite deitado num campo aberto, com a relva cerrada com o verde intenso sussurrando nas minhas orelhas, com o vento calmo para aliviar minhas costas desta carga tão pesada. Um céu estrelado. Uma chuva doce, talvez. Theo, já fui tão amena, agora estou tão medíocre. Sinto-me suja, fétida, nojenta. Estou mal. Não sei o porquê de estar falando essas coisas para você. Sempre detestei essa porra de lamentação. Ficamos tão vulneráveis quando fazemos isso. Mas sinto que hoje gostaria de ter algo além dessas paredes para conversar, sabe?

Theo:_ Môme, você precisa voltar para dentro de si. Você precisa desses esfregões bem dados para arrancar essa sujeira que você trás nos sapatos. Assim você estará melhor. Ver um céu estrelado com a pessoa desejada ou tomar banho doce de chuva não vai resolver nada, e você bem sabe disso. A tarefa é bem mais árdua e cansativa do que parece. Não basta apenas você se enterrar nesse quarto e jogar as cinzas para debaixo do tapete. Estou, não sei como, da mesma forma que você. Entendo perfeitamente.

Alice:_Eu entendo também esse seu refúgio. Lençóis, quadros, discos novos. Mas estamos nos reservando de que? Pra quem? Só não compreendo o motivo dessa hesitação. Será mesmo que depois dessa tempestade, vamos ganhar a calmaria? Hoje não consegui me conter novamente. Explodi dentro dessas memórias. Estava, nesta última hora, chorando com meus conhaques dentro do banheiro velho daquele boteco. Nunca senti tanta necessidade de alguém entrar nessa dor comigo. Assistir a esse espetáculo dramático e derramar essas caladas palavras sentimentais pelo rosto. Estragando minha maquiagem. Sinto tanta a sua falta, sabe? É um momento ruim. Eu colocar pra fora essa agulha que me alfineta a coluna e estremece de tonteira meu crânio. Acho que vou sair novamente para comprar cigarros. Penso que tudo isso é uma merda. Usar as pessoas para ouvirem seus lamentos.

Theo:_Não, continue. Você sabe que não me importo. Oh, só um minuto....Tudo bem, pode continuar.

Alice:_Não, tudo bem. O que estavas fazendo acordado tão tarde?

Theo:_Por incrível que pareça, estava arrumando o apartamento. Acho que darei amanhã um jantar e quero mudar os móveis do lugar.

Alice:_Sempre atrapalho e arrumo as vidas das pessoas. Você nunca arrumou nem se quer seus livros e discos na mesinha da sala. Mas não tem problema, querido. Pode ir. Arrume essa casa bem bonita. Coloque flores nos vasos, pendure seus desenhos mais belos nas paredes, tire a poeira debaixo do tapete e perfume todo o resto. Espero encontrar nossas vidas como esta casa planejada por você no momento. Organizada, perfumada e calma. Beijos. Vou me sentir melhor, temporariamente, dormindo.

Theo:_Você não vem?

Chamada encerrada!



terça-feira, 26 de outubro de 2010

Meninos não choram.


É que deveríamos ser assim sempre.
Procurando um amor,
uma identidade
e um lugar para chamarmos de lar.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Por tempo indeterminado.


Só quero que saiba que está tudo mais vivo aqui dentro. A barriga tem aquele tom frio de quando estamos perto de nos beijarmos. As maçãs do rosto têm aquele vermelho meio indeciso quando ouço algum elogio que ainda não consigo receber. Os olhos contêm aquele tom luminoso de água cristalina no verão radiante de nossos encontros.

E tudo fica assim, o azul mais intenso. O vermelho sempre querendo chamar mais a atenção. O amarelo reluzindo dentro da latinha com brinquedos. O verde sentindo todas as vibrações dessa nossa dança imaginária.

Faz-se assim, convidativo. Tiramos as cortinas para dançar, puxamos os lençóis para gozar, arrastamos as toalhas das mesas para comer. E o todo se contagia e se enche de graça. E com graça nos pegamos a sorrir pelos sofás e tapetes. Com fotografias desenhadas nos dedos, nos queixos, nos lábios.

Paramos para rabiscar esses nossos traços. Quando isso acontece, parece estarmos dentro de um corpo sedento de mistério e desejo. Queremos queimar nossa pele nisso tudo. Queremos maltratar de unhas fulminantes nossas costas. Queremos rasgar a voz com o sussurro de um prazer incontrolável. Como demônios que atormentam nossa santidade para provar do pecado tão delicioso e receptivo fogo.

É quanto tudo se queima. É quanto tudo se enfrenta dentro de nós. É quanto tudo se deixa derreter numa harmonia sedutora por amores inacabados e ainda nem sequer formados. Predestinados ou não nesses sambas de roda, nesses botecos vagabundos, nessas ruelas com putas baratas. Sem ligações com o tempo, sem interferências de espaço, sem o relacionamento propriamente dito com as pessoas para ele acontecer.

É porque não precisamos dos pandeiros, das vodkas e conhaques, das coxas sujas de outros sexos, do relógio, das estradas, das pessoas. Ou precisamos apenas disso tudo para darmos nome ao algo que nos rodeia. No mínimo, necessitamos das letras desse samba, da embriaguês, do sexo dormido de calçadas, dos ponteiros atordoando ou indo embora com o som, dos encostamentos. No mínimo de pessoas.

Analisar essa cantoria que ecoa dentro de mim pelos corredores da faculdade, do apartamento monótono e da biblioteca que nunca mais fui me deixa nesse banco parando para pensar no quanto surgiram para mim num par perfeito dentro dos sonhos que se tornavam pesadelos. Dentro do segredo revelado pelo ser/estar bêbado. Numa abstinência de amores/trepadas. Numa reprovação de paixões passadas. Numa insatisfação de seios, bundas e bocas mal comidas.

E foi assim, tiraram-me do estado vegetativo desses sentimentos bons. Uma quase eutanásia de sensações já perdidas por muito tempo dentro do meu baú de memórias.

Não os procurei pelos jornais e revistas daquelas velhas bancas mal pintadas. Não me preocupei em deixá-los entrar sem limpar os sapatos sujos de outros terrenos/amores. Não percebi quando já pediam o chá da tarde e comiam os biscoitos que custei em preparar. Só sei que já estavam alojados aqui dentro do meu esconderijo e eu não quis deixá-los saírem. Porque lá fora fazia um frio que eu não queria que sentissem.

Deixo esse desejo para um futuro talvez breve. Fiquem aqui dentro de mim. Não sei ainda por quanto tempo, seus.

Júnior

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sobre o sono depois do choro.

Apagaram-me na cama. Úmido de sal e água. Puseram-me debaixo da seda e deixaram que eu a molhasse. Não me refugiaram dos quadros do meu quarto. Não me fingiram diante os discos de cantorias de carnavais. Não me seguraram as mãos cheias da fadiga. Nada além de exaustão saindo por meus tímidos e viris olhos. E então me deixaram assim, descobrindo.

O sono é mais doce depois do choro. O olho inchado se molda com os melhores sonhos. As pupilas se desdobram e desenham o conforto das horas apagadas. Os cílios se umedecem para encharcar de calmaria todo o quarto. A bochecha amassa a cara com o pesado corpo do sono. As lágrimas deixam escorrer a leveza do descanso depois do martírio. Tudo se entrelaça e vibra na condição de ser dormido. Puxa a tristeza que se esconde embaixo do lençol. Rasga o desconforto e a sensação de chumbo das costas. Seca a poça d’água que se formou com a janela aberta. Apaga da mente por instantes a realidade que faz relampejar de lágrimas. Faz com que o sono fique mais denso, mais pesado, mais concentrado.

E então, aparece o sentir/estar melhor, durante o sonho bom de anti-choro. Dura o tempo necessário para o acordar com a cara emburrada. Dura o tempo necessário para o mal estar retomar forças. Dura até quando o real vivo na parede depois do sono depois do choro chegar.

Júnior.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Término.


Depois que eu me tornar essa merda ruim que não é tomado como exemplo para um relacionamento comum, com beijos doces e pegadas de coxas, não venha me dizer que eu não me esforcei.

Depois de ter te dado as melhores tulipas, depois de ter remendado sua pipa colorida de infância que ficava na parede do seu quarto, depois de ter polido sua gaita empoeirada que encontrei debaixo da cama, depois de ter desenhado esses quadros indianos para você, depois de ter feito chocolate quente nas noites de frio e esquentado seus pés com nosso amor, não me venha dizer que não me mantive com atenção para te agradar.

Não poderá vir com essa porcaria de fim de aventuras, que geralmente entras em guerra contra os seus melhores sensos, dizendo que não era pra ser, que foi melhor assim ou que eu não merecia o seu sentimento porque era pouco. Isso não presta nem nunca prestou. Serviu apenas para você tentar justificar de uma forma mal sucedida sua partida sem volta e sustentar uma obrigação de desculpas por algo que não precisa ser explicado.

Foi tudo muito intenso. Por isso ficamos assim. Sentimos uma necessidade de amar/sofrer/querer sofrer com o amor/amar todo esse sofrimento/e ter fé que vai continuar na merda amando/sofrendo tudo isso.

Apesar de tudo, ainda sim penso. Está tudo bem pra mim. Acho que depois de uma partida inesperada tenho mais o sol na janela. Tenho mais café na xícara. Mais disposição pra outras danças com outros pares. Mais vontade de querer sofrer menos.

Mesmo assim, estou ainda concertando as cordas do violão que costumávamos tocar em dias de chuva no canto da sala. Limpando as fotos sujas de merda de insetos. Costurando os fantoches de meias coloridas que brincamos em um dia insano.

Enfeitando tudo isso que restou.

Desenhando com o meu sexo solitário nas paredes do banheiro. Fumando cada vez mais depois das coxas na minha cara.

Só assim, creio que me sinto à vontade. Mesmo depois de tudo. Se não perdurou, ótimo! Sobra mais espaço e tempo pra mim. No meu apartamento e no meu coração passando da data de validade.

Só não se torne essa coisa amarga que te vejo nos bares em meio tanta cachaça e trepadas? Só não se torne essa bolha que cospe tudo que lhe oferecem de forma carinhosa? – porque sei que ainda existe o tal do carinho- Só não diz que falta paciência para o mundo e não foge entre os carros? Porque isso eu não quero pra você. Porque isso eu não quero pra mim, mesmo sem seus cabelos no meu travesseiro.

Isso é algo que te mata aqui dentro. Aos poucos quebra e sai com a fumaça no meu pulmão. Vomito de leve e maltratado tudo que te resta dentro do meu estômago. Cuspo sem perceber o gosto das tuas nádegas em qualquer calçada. E assim, desse jeito, movimentado involuntariamente, já não tenho o teu cheiro impregnado nas minhas calças.

Júnior.

domingo, 10 de outubro de 2010

Peculiaridades. 3 O Sentido Amar Contemplado.



Em suma, aos amores que choram nas tardes de saudade.

Aos amores que jamais os fortes compreenderiam.

Aos amores que te calam a boca com a sensação gostosa do estar junto.

Aos amores que te lembram as músicas sopradas com o vento no fim de tarde.

Aos amores que te pintam o rosto de contentamento.

Aos amores que te afogam no peito de tanto nervosismo pela outra presença.

Aos amores que te suam as mãos, que te gelam a testa, que te sangram de desejos.

Aos amores que te deixam nas praças com cara de bobo.

Aos amores que te fazem sonhar acordado.

Aos amores que te deixam mais leves no dia pesado.

Aos amores que te sonham antes de dormir.

Aos amores que existem, não só por existir.

A todos os amantes, O Amor.

Júnior!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Peculiaridades 2. O Sentido amar não recíproco!

Amores sem reciprocidade.
Amores que te fazem doer.
Amores sem destinos nesta cidade.
Amores que te deixam sofrer.
Amores que não vêem a beleza do amante.
Amores que não sentem saudade a todo instante.
Amores que mofam no escuro do peito.
Amores que morrem por nada feito.
Amores que secam da espera no sol ardente.
Amores que se julgam eloqüentes.
Amores que não enxergam o sentido amar.
Amores que não existem por gostar.

Júnior!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Peculiaridades 1. O Sentido Amar.



A este amor que tanto sonhei depois das películas cinematográficas.

A este amor que tanto chorei depois dos mares de sonhos acabados.

A este amor que tanto pintei nos livros e paredes de colorir.

A este amor que tanto esperei e não me avisaram quando ele ia chegar.

A este amor que tanto desejei, até quando não fito os seus olhos.

A este amor que tanto colecionei em figurinhas, mesmo em repetidas.

A este amor que tanto soube existir, mesmo sabendo que nada sei dele.

A este amor que tanto senti, mesmo quando estive embriagado de realidade.

A este amor que tanto procurei, mesmo entre calçadas vagabundas.

A este amor que tanto senti, mesmo sabendo que ele não está contido no meu peito.

Em suma, a esses amores irreais, platônicos, surreais, carnais, incontroláveis, irracionais, estranhos, cegos, surdos, mudos, com a boca cheia e a borda escorrendo de amor pra amar.

Júnior.

(Desenho elaborado na sala de aula. Para variar, aula muito chata de Cretin...opp´s, Christina.)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Bêbado de tolice.


Penso na tolice da embriaguez. Fiz da última vez para tentar esquecer algo. No entanto, se soubéssemos, antes do primeiro gole desejado, o sabor amargo que as lembranças têm quando tocam nosso paladar, não fazíamos isso.

Um gosto tão estranho que parece amassar-nos contra a parede meio suja já por outros, afim do vomito de ar comprimido nos nossos cérebros há décadas. O lembrar já podre grudado na nossa mente. Sem data de validade. Sem destino. Sem convite para entrar e permanecer para o chá da tarde.

Bebemos para esquecer. Quando assim ocorre. Não esquecemos. Falamos entre corredores bagunçados, banheiros lotados de merda, calçadas corrompidas do lixo, todos os males e infernos que nos reascendem de contradição para o nosso presente já passado sendo planejado para o futuro tão breve que parece mentir e não chegar.

E nada se faz como queremos. Ficamos vulneráveis. Choramos ou não feito crianças mimadas. Somos amados e odiados por todos em volta.

Até que chega a hora do descanso. Depois do gole. Depois do amargo. Depois do choro. Depois do vomito e vergonha sangrada nos ambientes... Aparecem nossas camas.

Aí sim, percebemos com a maldita ressaca o quanto estávamos infames nos olhares dos outros. Aí sim, percebemos a contradição da nossa realidade. Quando mais queríamos esquecer as lembranças que arranhavam nossa cabeça, não conseguimos. Acordamos com elas mais vivas do que antes, exalando o cheiro amargo, azedo do nosso vomito, e ainda temos de pensar na merda da tolice da noite passada. A embriaguês.

Júnior!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Mutável.


E vai ser assim. Você ai e eu cá. Eu com minhas bolinhas de gude ainda sujas de lama terra molhada. E você com seus livros já rasgados pelo tempo traça e pela correria. Eu querendo ser menino sonhador dos filmes de aventura. E você querendo ser dona das suas próprias pernas. Eu tomando coragem pra gritar o amor nas praças e agitar a calmaria dos pombos se alimentando. E você julgando a minha inconstante forma de querer surpreender-te. Eu querendo pegar briga no pátio do colégio por ouvir de forma suja seu nome. E você querendo ser estrela entre amigos de trabalho que não se lembram do meu apelido. Eu estudando música pra fazer-te uma canção. E você estudando cinema pra passar o filme do meu fracasso/amor. Eu querendo ser passarinho verde. E você nem ai para o meu voar colorido. Eu tagarelando nos corredores sobre seus beijos. E você apagando o gosto desses simples gestos. Eu tentando decorar o francês das músicas de Piaf. E você rasgando os versos em português amador que te deixei embaixo do travesseiro. Eu colhendo flores pra deixar no retrovisor do seu carro. E você acelerando ele para passar por cima de mim e acabar isso tudo de uma vez. Eu querendo seguir teus pés na areia quente da praia. E você apenas querendo saber em que planeta eu me encontro. Eu querendo me inflamar numa dessas paixões. E você me dizendo pra ir embora e fechar a porta. Então, ainda meio assim, calado, preso num catarro ou em outro na garganta, resolvi não mais falar sobre o amor. Porque ele é inconstante. Pelo menos o meu. Ele é assim tão passageiro, que ontem mesmo, te amei de novo, e de novo, e de novo. Depois de cada palavra dita no silêncio dessas cartas meio secas. Depois dos risos sem sons dos desenhos que me presenteou há anos. Depois do nada que houve entre nós dois. Depois do ódio. Depois do maldizer nos botecos. Depois dos discos quebrados de ausência da tua voz me cantando pela manhã. Decidi que será assim. Que vai ser assim. Vou sair disso. Vou mergulhar numa outra dança com um outro par. Vou virar beija-flor de outros jardins. Vou virar essas traças. Corroendo as bordas desse todo até não existir mais nada. Até existir o nada. Para existir o só, somente. Tão passageiro quanto o amor. Esperando mais uma ou duas músicas para me tornar novamente isso que ainda sinto latejando dentro desse ser. Necessariamente, esperando a mudança. Saindo desses tecidos amassados de amor.

Júnior!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O lembrar mucoso.


O lugar ainda continua o mesmo daquele menino que soterrava seus soldados de brinquedo na lama do quintal da antiga casa.

O mesmo que o grande menino desenhava com suas folhas secas de outono e giz de chão barrento.

O mesmo que o sonhador menino pintava seu rosto com as cores de um teatro vivo.

O momento ainda continua o mesmo daquele singelo palco onde viviam as suas efêmeras posições em relação a um romance.

O mesmo onde ele se perdeu num abrigo de cheiros e sons convidativos para uma noite bem dormida.

O mesmo onde se estranhou nas medidas incertas do amor.

O tempo ainda continua o mesmo daquele corredor quando os quadros parados observavam um amor inútil e insolente.

O mesmo quando o incenso doce e ácido pairava sobre dois corpos suados.

O mesmo quando a lua espiava silenciosamente pela janela um carinho que o tal pensar fazia eterno.

O hoje? Sim. Este, eu creio que mudou.

Não há mais a simetria daqueles lugares sedentos por algo isento do aquilo raro que se transformava feito fumaça ao sair da minha boca.

Não há mais a simplicidade dos retratos simbólicos daquela realidade pura que andava sonhando numa tarde calma depois do almoço assassino da minha fome.

Não há mais nada além de cartas mal escritas com músicas/rimas repetidas, desenhos surreais desbotados e comidos por traças, palavras penduradas num fio de lembrança no meu telhado, sons estranhamente entrelaçados nos meus lençóis úmidos.

Não há nem sequer este silêncio que tanto me julgam ter entre bares ao som do samba mais triste, avenidas em pleno carnaval contentado, nas noites de gramado em plena lua, nas cantorias de textos improvisados com tamanha falta de inovação.

Nada restou no antigo relicário. Se é que o mesmo um dia existiu.

Restou o fato, o ato, o trato. Maus feitos e mal retratados. Nunca consumidos ao meu almejar. Nunca no meu silêncio. Nunca na retina da minha doce simplicidade para o amor que se estragava.

E se algo ainda existir. Dentro de mim ou fora desse corpo. Na minha mente ou entranhado na parede do meu quarto. Nos meus discos mal cantados ou na minha garganta dilacerada...

Será essa merda que sempre quis deixar arranhando-me durante o sonho.

Esse catarro que eu sempre quis grudado no meu esôfago.

Pigarro. Limo. Aquele. O do verde. O do roxo.

O do bem podre e viscoso.

Que não me deixa gritar.

Que não me deixa falar.

Que não me deixa mentir.

Que não me deixa engolir essa porcaria de comida pegajosa que tanto me faz lembrar o seu modo mucoso de oferecer palavras/atos/flores/desenhos/gestos/carinho...Sempre mal ensaiados.

Junior

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Passarinho de afeto quebrado.


É que a semente caiu na água e desmanchou meu riso. Eu sabia que não ia durar muito. Estava tão delineado ali, parado, bonito, intacto, livre de mim, que pensei ser algum efeito alucinógeno. Veio esse tal passarinho verde e num descuidado, das alturas, soltou seu futuro consumo. Desmanchou-se, então. A semente e a alegria. Afeto quebrado na tensão d água.

Bateu na minha cara como tapa de um amor que nunca acreditei que fosse levar. Estralou o vermelho que gritou de dor dentro do meu peito. Manchou com o pó restante a cor viva que desfrutei em poucos minutos. Apodreceu essa fruta roxa que tanto guardei para comer no fim de tarde. Com o verde, com o azul, com o vermelho. Suculentos. Pedindo meus dentes e beijos.

Mas não foi como eu li nos livros, vi nos filmes, soube nas lendas. Fora d água, meus olhos não brilharam, meu riso não brotou vivo no rosto e a disposição para isso que eu nem sabia o que era, estava amena. Não me esperaram ensaiar nem um improviso sequer. Não me deixaram enfeitar com laços meus sonhos bons de menino carente. Não me deixaram ao menos, fazer a barba, me perfumar, arrumar o cabelo. Nem os dentes amarelados eu pude escovar.

E fiquei assim, com a cara sem coragem nessa grama vendo minha imagem se espalhar com o sopro do barco de papel que caiu, o qual eu amassei de amor. Mole de água. Cansado desse mar. Desses sopros. Até dessas dobras tão limitadas e seqüenciais.

Tremi calado. Imagem. Só, com a expressão de desmanche. Descarregado no lago. Desfrutado de tão pouco. Um algo com tal roxo que foi embora e sei que não vai nascer dessa semente que o pássaro deixou cair. Inchada. Podre. Não vai pegar viagem com esse barco naufragado, nem muito menos se encaminhar nesse sopro de brisa leve e perfumada de frutos. Pelo menos não nesta tarde de ainda sementes.

Júnior

sábado, 21 de agosto de 2010

Pedido quase Delito.


Isso vai me enlouquecer. Vai me agarrar as entranhas e me puxar para baixo como energia negativa sobrecarregando minhas costas. Me deixará mais afundado nessa agonia de bêbado tentando esquecer seus amores nos botecos fétidos dessa cidade. E que cidade miserável. Essa podridão no canto das calçadas é de dar-me um embrulho no estômago e fazer-me revirar de um canto para o outro da cama quando tento dormir. Essa merda que desenha as paredes desses prédios e outdoors dessas avenidas com figuras ilustradas de puro cinismo, parece rasgar-me com veracidade minhas limitadas verdades sobre o meu bem estar.

Vestido com essa regata branca, bermuda rasgada e chinelo de couro com aquela velha mochila xadrez recheada com meus sonhos num pedaço de papel, andei desfilando por entre becos e ruas sem saída, e sendo repugnado com esses olhares que não retribuíam meu contentamento comportado. Olhando para um lado, o padeiro me mastigava passado na manteiga com seus olhos cheios de dentes como se soubesse o que andei fazendo na noite passada nas camas alheias ou ninhos de recanto. Olhando para o outro lado, a vizinha fofoqueira me cuspia com bafo na cara a indecência e intolerância que isso tudo se torna para quem não vive na minha carne, na nossa carne, naquela carne que tanto a chamam de podre e é massacrada por esta merda de sociedade. Até o mendigo bêbado do quarteirão distante, indigente miserável, não o julgando, me fazia meter meu rabo entre as pernas que, então, ficavam trêmulas de tanto desconforto.

Esses olhares me queimam as bochechas de tanta incompreensão. Cortam-me as pernas. Sangram-me os lábios. Queimam minhas asas que se fazem tão pequenas. Desprezam meus sonhos mais inocentes. Não traduzem essas línguas tão idênticas chupadas com o mesmo tom roxo de amor. Não dissipam a desigualdade que ainda está embutida nos bancos de praça, nas escolas, nas pregações religiosas, nos senados. Não me fazem almejar esse amor que tanto distribuem em enlatados nas igrejas e em gente boa de família. Deixam-me curvado, com joelhos no chão, dolorido diante um pensar que tenta me parecer errado, cancerígeno, praga maligna que se espalha entre campos abertos, ruas estreitas, mentes fechadas, e estimula os amores errôneos dessa gente tão pobre de conceitos.

Gostaria de entender, meu Deus, o porquê de toda essa reprovação? O porquê de tanta falta de tolerância? Pelo qual motivo o respeito-pelo-próximo resolver se soltar da boca de um indivíduo e desvanecer-se no ar como algo barato e simples? Pelo qual motivo, “essas-queridas-pessoas-normais”, resolveram estragar um dom tão divino? Pisar nele feito inseto repugnante que te dá náuseas? Não entra de nenhuma forma na minha mente o porquê desse mau-dizer imenso que jorra nos chafarizes secos dessa cidade. Não consigo ver motivo são para não me deixarem morrer de amor. Não consigo ter uma visão semelhante para não me deixarem acariciar um rosto tão semelhante ao teu, Cristo. Será que vão nos moldar e nos petrificar feito doença nas praças? Será que vão atirar pedras nas nossas cabeças para dar defeito nessas engrenagens sutis para voltarmos a ser como éramos antes, igual a todos os “normais”?

Não sei Senhor, já não mais sinto essa bondade entre os homens. Já não sei o que será daqui pra frente quando as guerras definitivamente começarem. Peço-lhe, apenas, que atendas meu pedido. Nesse meio onde os homens comem a carne podre um dos outros. Nesse meio onde os cães lambem com vontade essa merda que sai da boca desses bêbados de má fé jogados nas calçadas. Peço-lhe que apenas aprece o passo. Fabrique algo para curar essa dor incômoda que arranha meu sono. Algo que possa ser injetável, que não doa, que amenize essa enxaqueca que me desnorteia depois de horas batendo a cabeça na parede para isso tudo entrar na minha mente. Porque assim, não está dando mais para sentir a calmaria do sol batendo nos meus olhos me mantendo vivo no gramado que tanto me esconde.

Júnior.

domingo, 8 de agosto de 2010

Agridoce Perfume.



Sem permissão. Sem intuito. Sem estar preparado. Senti seu cheiro quando passei pela cozinha. Ia apenas despejar o resto do café que ficou entranhado no fundo da minha xícara. Mas não poderia ser apenas desse jeito. Quando passei pelo tapete junto à porta, seu perfume agarrou-me feito predador veloz e voraz. Dilacerou-me. Impregnou, feito praga, sem dó nem piedade, nas minhas maçãs róseas do rosto o arder dessa paixão ainda viva e as deixou vermelhas num estado de sangue onde perceberam minha apreensão. Chupou-me os lábios úmidos de cafeína e os deixou seco feito a canela que ficou sobre a toalha mal passada da mesa.

Ele veio assim, temperado com açúcar e vinagre junto ao odor do jantar. Quente feito minhas febres de saudade nos dias mal dormidos depois de horas de leitura das suas antigas cartas. Macio como os detalhes de seda das cortinas do basculante desta pequena cozinha. Correu debaixo dos móveis. Entrelaçou-se entre as pernas das cadeiras rústicas. Escondeu-se por trás da vassoura maltratada que descansava do lado dos chinelos velhos, os quais eu me esqueci de tirar para por no quintal. E esperou-me. Calado. Ansioso para ver minha cara de bobo nesse espetáculo onde fez o tempo parar por minutos e repassar em minha mente fértil uma película fracassada do nosso teatro.

Surpreendeu-me. Não houve grito. Só espanto. Desses calados, onde pode ter até uma lágrima escorrendo no canto do rosto. Salgado. Com muito sal parecendo ácido que doeu os olhos. Doce. O quanto mais, melhor. Perfume que não me alivia. Só me mata. Quieto como um veneno de lembranças que entra pelos meus brônquios e rasga como esponja fraca meus pulmões cheios de nicotina sedenta. Onde viram fumaça agridoce, com bastante acre e com muito açúcar.

Júnior.