sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Por tempo indeterminado.


Só quero que saiba que está tudo mais vivo aqui dentro. A barriga tem aquele tom frio de quando estamos perto de nos beijarmos. As maçãs do rosto têm aquele vermelho meio indeciso quando ouço algum elogio que ainda não consigo receber. Os olhos contêm aquele tom luminoso de água cristalina no verão radiante de nossos encontros.

E tudo fica assim, o azul mais intenso. O vermelho sempre querendo chamar mais a atenção. O amarelo reluzindo dentro da latinha com brinquedos. O verde sentindo todas as vibrações dessa nossa dança imaginária.

Faz-se assim, convidativo. Tiramos as cortinas para dançar, puxamos os lençóis para gozar, arrastamos as toalhas das mesas para comer. E o todo se contagia e se enche de graça. E com graça nos pegamos a sorrir pelos sofás e tapetes. Com fotografias desenhadas nos dedos, nos queixos, nos lábios.

Paramos para rabiscar esses nossos traços. Quando isso acontece, parece estarmos dentro de um corpo sedento de mistério e desejo. Queremos queimar nossa pele nisso tudo. Queremos maltratar de unhas fulminantes nossas costas. Queremos rasgar a voz com o sussurro de um prazer incontrolável. Como demônios que atormentam nossa santidade para provar do pecado tão delicioso e receptivo fogo.

É quanto tudo se queima. É quanto tudo se enfrenta dentro de nós. É quanto tudo se deixa derreter numa harmonia sedutora por amores inacabados e ainda nem sequer formados. Predestinados ou não nesses sambas de roda, nesses botecos vagabundos, nessas ruelas com putas baratas. Sem ligações com o tempo, sem interferências de espaço, sem o relacionamento propriamente dito com as pessoas para ele acontecer.

É porque não precisamos dos pandeiros, das vodkas e conhaques, das coxas sujas de outros sexos, do relógio, das estradas, das pessoas. Ou precisamos apenas disso tudo para darmos nome ao algo que nos rodeia. No mínimo, necessitamos das letras desse samba, da embriaguês, do sexo dormido de calçadas, dos ponteiros atordoando ou indo embora com o som, dos encostamentos. No mínimo de pessoas.

Analisar essa cantoria que ecoa dentro de mim pelos corredores da faculdade, do apartamento monótono e da biblioteca que nunca mais fui me deixa nesse banco parando para pensar no quanto surgiram para mim num par perfeito dentro dos sonhos que se tornavam pesadelos. Dentro do segredo revelado pelo ser/estar bêbado. Numa abstinência de amores/trepadas. Numa reprovação de paixões passadas. Numa insatisfação de seios, bundas e bocas mal comidas.

E foi assim, tiraram-me do estado vegetativo desses sentimentos bons. Uma quase eutanásia de sensações já perdidas por muito tempo dentro do meu baú de memórias.

Não os procurei pelos jornais e revistas daquelas velhas bancas mal pintadas. Não me preocupei em deixá-los entrar sem limpar os sapatos sujos de outros terrenos/amores. Não percebi quando já pediam o chá da tarde e comiam os biscoitos que custei em preparar. Só sei que já estavam alojados aqui dentro do meu esconderijo e eu não quis deixá-los saírem. Porque lá fora fazia um frio que eu não queria que sentissem.

Deixo esse desejo para um futuro talvez breve. Fiquem aqui dentro de mim. Não sei ainda por quanto tempo, seus.

Júnior

3 comentários:

  1. linhas regadas a paixão, talvez cortante

    ResponderExcluir
  2. E o que necessita dizer... ele diz.
    :D

    ResponderExcluir
  3. É como eu digo sempre: Bons ventos sempre chegam.

    ResponderExcluir